quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Encontro de Formação da Pastoral Carcerária da Diocese de Estância

No dia 5 de fevereiro de 2017, aconteceu o Encontro de Formação da Pastoral Carcerária da Diocese de Estância, e este contou com a participação da equipe da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Aracaju. Presenças de Dom Giovanni Crippa e Pe. Humberto. Confira:









A Psicologia aponta os 8 motivos- filhos virarem delinquentes

A Psicologia aponta os 8 motivos pelos quais os pais são os culpados dos filhos virarem delinquentes:

1- Pai que dá ao filho tudo que ele pede:
A criança crescerá pensando que tem direito a tudo que desejar.

2- Pai que ri quando o filho fala palavrões:
A criança crescerá pensando que o desrespeito é  normal e engraçado.

3- Pai que não repreende por mal comportamento:
A criança crescerá pensando que não existem regras na sociedade.

4- Pai que limpa a bagunça do filho:
A criança crescerá pensando que os outros podem assumir suas responsabilidades.

5- Pais que deixam de assistir TV  porque o filho grita quando tira do desenho:
Crescerá pensando que não há diferenças entre adulto e criança.

6- Pais que deixam que os filhos ouçam músicas que vulgarizam  a mulher, estimulem sexo sem compromisso e a violência com o diferente:
precisa nem dizer o que vai resultar né?...

7- Pais que dão aos filhos dinheiro a hora que querem:
Crescerão pensando que dinheiro é  fácil e não exitarão em pegar quando não conseguirem.

8- Pais que se colocam sempre a favor do filho, independente de estar certo ou errado:
Crescerá acreditando que os outros o perseguem quando for contrariado.

PORTANTO:
Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.
Provérbios 22,06_.

Vamos divulgar!

NOVOS AGENTES VISITAM CADEIA DE ESTÂNCIA



Novos agentes da Pastoral Carcerária de Estância visitaram a Cadeia Pública de Estância, após o Curso de Formação.

sábado, 26 de novembro de 2016

DEUS NÃO ESTÁ LONGE NEM PERTO, DEUS É

 

“Deus não está longe nem perto, Deus é”

Meus caro Abner,
Estou mais leve. Perder a responsabilidade de crer nas respostas prontas torna-me mais tranquilo. Serei adepto da procura. Seguirei crendo mesmo que eu não saiba expressar o que creio. A propósito, preciso confessar-lhe que suas palavras me despertaram uma curiosa forma de enxergar a fé de minha mãe.
Ela, na simplicidade de seus argumentos, não sabe dar respostas às minhas perguntas, e mesmo assim ela segue crendo. Minha dúvida não é nada perto de sua crença. Eu, sempre que interrogado sobre minhas convicções acadêmicas, acabo por me conflitar com o que julgo saber. Essa é a natureza do conhecimento. Ele é sempre relativo. É verdadeiro até que provem o contrário. Meu conhecimento está fundamentado em inúmeras corroborações, tornando-o um lugar seguro onde ancoro minhas convicções.
Mas com minha mãe não é assim. A sua fé não é relativa. Não há nada que possa pôr em questão a confiança que ela professa em Deus. Ela crê, mas não depende de provas científicas para crer. Crê porque vive no impulso de uma fé existencial sem a qual ela não saberia definir-se no mundo. Ela é cristã. Meu pai é budista. Ambos enxergam o mundo a partir das lentes que suas religiões lhes oferecem. São pessoas que creem em formulações diferentes, mas se encontram em muitos pontos. São pessoas de bem e lutam para que o mundo, esse particular, esse que se traduz em necessitados concretos, seja beneficiado pela sua bondade. Meu pai fala com muita eloquência sobre o que crê, mas minha mãe não.
Outro dia eu lhe perguntei se havia provas concretas da ressurreição de Jesus. Ela disse que não. E foi então que eu a desafiei dizendo que seria absurdo ter fé num acontecimento que não pode ser provado cientificamente. Ela me respondeu com muita simplicidade que se houvessem provas não haveria necessidade de ter fé. Sua saberia retirou-me a coragem para uma nova pergunta. Respostas inteligentes nos provocam para outras perguntas, mas sábias nos calam.
Querido Abner, ando navegando sobre as águas da sabedoria. Ela tem remanso diferente do da inteligência. O rio dos intelectuais é mais claro e sem muitas curvas. Já o rio dos sábios é turvo e sinuoso. Requer habilidade para uma navegação segura. Eu vou aprendendo.
Meu jardim cresce, assim como crescem minhas alegrias. Já não tenho o desconforto dilacerante das primeiras cartas. Meu amor por Clara agora é leve, e por isso não me custa levá-lo comigo. Ainda que não seja correspondido, esse amor faz parte de minhas riquezas humanas. O desprezo que recebi de Clara não retira a nobreza do que sinto por ela. Esse amor não me expõe fraco, tampouco me empobrece, ao contrário, torna-me ainda mais feliz. Recordo-me de suas palavras desafiando-me a olhar para o pódio onde o florista ostentava sua vitória sobre mim. Hoje não me sinto envergonhado por isso. Paralelo ao pódio principal existe outro, não concreto, e que só pode ser visto pelos olhos de quem sabe crer que no fracasso há vitória. Nele eu ocupo o lugar mais alto. Sou muito mais homem depois de ter sido derrotado, e essa visão eu devo a você.
Incorporei ao meu dia o hábito de ir buscar-me para que não durma sem mim. Tenho chegado à conclusão de que meu jardim tem me devolvido a mim mesmo. Estou ressuscitando em cada semente que brota, e para essa ressurreição eu também, assim como minha mãe, não tenho provas concretas. Uma coisa é certa. Minha mãe sabe que estou ressuscitando, e assim como ela dá testemunho de Jesus, ela também dará este testemunho por mim. 
Obrigado por ter gritado à porta de meu sepulcro. Obrigado pela palavra que ordenou a minha ressurreição. Obrigado por ter ajudado a retirar as minhas faixas. É com alegria que hoje ouso dizer, biblicamente:”O que estava morto agora vive”. 
Com amor de filho,
                              Alfredo

Publicado por: Pe. Fábio de Melo, em 16 nov 2016
Disponível em: http://www.fabiodemelo.com.br/deus-nao-esta-longe-nem-perto-deus-e/

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

É SOBRE BANHEIROS QUE TEMOS QUE FALAR?

Por Sara Antunes*
Uma menina entrou em contato comigo pelo Facebook, se apresentou como filha de uma conhecida, estudante de arquitetura. Sabia pela sua mãe que eu trabalhava com penitenciárias femininas e gostaria de saber mais sobre esse universo, uma vez que pretendia realizar um projeto de construção de uma penitenciária. Parecia especificamente interessada na quantidade de banheiros necessários para se planejar uma prisão. Perguntei-me do porquê de os banheiros despertarem tanto interesse. Seu primeiro questionamento não era sobre a quantidade de celas, sobre como lidar com a superlotação, sobre os espaços destinados ao banho de sol, se existiam solitárias, se havia oferta de trabalho ou atividades laborais, as diferenças estruturais entre regimes fechados e semiabertos. Não. Seu interesse ou, talvez, sua maior curiosidade era saber como eram os banheiros e quantos deveriam existir para suprir a demanda populacional da prisão.
Enfim, desconfortável e intrigada com seu questionamento, fiquei um tempo a pensar. Digo desconfortável não pelo banheiro, mas pelo motivo que a levou em primeiro lugar a me procurar. Ela estava interessada em saber como planejar uma prisão. O que a vivência em instituições prisionais me mostrara (e mostra aos que quiserem ver) é o quanto esse é um sistema falido, uma retroalimentação de erros. Longe de “reformar” indivíduos ou diminuir a criminalidade – supostamente seus propósitos fundacionais –, fabrica corpos e vidas violentas e violentadas. Produz delinquência na mesma velocidade em que produz vidas matáveis.
Para além disso, a própria definição do que é considerado crime, em que momento histórico e, especialmente, quem serão aqueles etiquetados enquanto “criminosos em potencial” é algo absolutamente contingente e historicamente comprometido com os interesses das elites econômicas. No caso brasileiro, sabe-se bem onde a vigilância e truculência policial recai – sobre a população preta e pobre das periferias. Etiquetados, são alvo e destino dos esforços repressivos da segurança pública. Por consequência, os mesmos que majoritariamente ocupam os sufocantes metros quadrados da prisão.
Dessa forma, ao refletir sobre o questionamento da menina, percebia que meu incômodo adivinha de um dilema ético: cooperar com ela ao responder sua pergunta fazia de mim cúmplice de esforços empenhados em perpetuar o sistema prisional, em dar seguimento a contínua (e eterna) reforma da prisão. Invariavelmente abolicionista, como podia eu auxiliar (ainda que consciente da pequenez dos seus efeitos, tendo em vista ser apenas um trabalho de final de curso) um movimento que caminhava no sentido exatamente oposto das convicções que levo comigo? Desse embate, que travava até então apenas em minha cabeça, resultaram alguns esboços de reposta a essa garota. Todos me pareciam absolutamente amedrontadores para alguém que só havia me perguntado quantos banheiros são necessários para se planejar uma prisão. Mas, então, ponderei: o plano de fundo sobre o qual se ampara essa pergunta, não é ele mesmo amedrontador?
Assim, continuei a pensar o porquê do seu específico interesse sobre os banheiros. Ao fazer o cálculo do que é necessário para se projetar uma prisão, a primeira coisa que essa pessoa, futura arquiteta, considerou essencial à vivência dentro de uma penitenciária eram os banheiros. Questão de higiene? Questão de salubridade? Questão de recursos, uma vez que banheiros e cozinhas são os cômodos mais custosos? Parecia-me isso, mas não era só isso. Ao menos não era isso que me incomodava. Sua preocupação era demasiado técnica, demasiado prática, demasiadamente formal. Não se tratava, no caso, de qualquer projeto de edifício, de uma estrutura padrão formada por blocos, tijolos, tinta, concreto, massa corrida. Tratava-se de uma estrutura formada por, além disso, grades, ferro, muros altos, cercas elétricas, cabines de vigilância, paredes cinzas. Não era sobre um ambiente arquitetado e construído para a circulação ou habitação de pessoas, pura e simplesmente. Tratava-se de um ambiente construído e desenhado para aprisionar pessoas, para puni-las, para cercear sua liberdade. Não. Ao perguntar sobre os banheiros, sua fala não evidenciava apenas uma preocupação técnica. Representava sua indiferença à vida que lá transcorreria para além de um banheiro funcional para atender necessidades fisiológicas.
O meu incômodo na fala da filha de minha conhecida emergia no momento em que evidenciava a percepção corrente de grande parte da população sobre a vida que se acredita existir nas penitenciárias por todo o país; na verdade, sobre a sua falta, ou, justamente, sua sobrevida. Em outras palavras, ao escolher se preocupar com banheiros, deixa-se, ou, ao menos coloca-se em segundo plano, a preocupação com salas, salões, corredores, pátios. Mostra-se secundária a preocupação com o fato de que na prisão as pessoas vivem, convivem, habitam e fazem morada – evidentemente contra sua vontade –, mas o fazem durante meses ou anos de suas vidas. Ao fato de que tal espaço não consiste apenas em um edifício projetado para atender às necessidades básicas de sobrevivência. Mas às necessidades de vida, especialmente as de convida.
Um projeto de prisão preocupado com a quantidade de banheiros está ocupado com questões técnicas, mas alheio às questões humanas. Alheio às implicações históricas e políticas desse lugar. Ou, simplesmente, indiferente.
Os problemas e relatos que me eram feitos durante as visitas em penitenciárias femininas não diziam respeito às condições do banheiro. Diziam sobre a comida estragada, sobre os espaços superlotados, sobre o calor, a falta de ventilação, a falta de materiais básicos (de higiene, vestimenta), a água morna (e não tratada) pra beber no dia quente, o banho gelado no dia frio. A falta de espaço. A falta – ou negligência – de assistência jurídica. De assistência médica. O tempo alargado. O tédio. As saudades.
Suas demandas eram maiores e mais vivas do que banheiros funcionais. O problema social que envolve a existência de presídios é imensamente maior do que proposições de novos ou a reforma dos que já existem. A fala dessa menina, a contrapelo de sua intenção, me mostrou que certamente devemos parar de pensar em banheiros. Devemos, sim, pensar no fim da prisão.

*Sara Antunes é integrante da Pastoral Carcerária e mestranda em Antropologia Social pela Unicamp.

Disponível em: http://carceraria.org.br/e-sobre-banheiros-que-temos-que-falar.html